Chuteiras penduradas, e agora?
- Revista Viral
- 13 de dez. de 2023
- 3 min de leitura
Sonhando novos sonhos através do estudo, Ana Carla e Jully contam experiências com a Universidade
Por: Bianca Ramos, Gyovanna Soares e Julia Soares

Se o futebol é um esporte de carreira curta, a aposentadoria é ainda mais
precoce para o time feminino, que além de sofrer com salários bem mais baixos em relação aos dos atletas masculinos, acaba pendurando as chuteiras bem mais cedo. Há exceções, claro, como a jogadora Formiga, que encantou os gramados até os 43 anos ou a rainha Marta, que continua batendo um bolão aos 38 anos. As mais precavidas se preparam para a vida fora dos gramados, caso de Ana Carla de Oliveira, meio-campista do Santos FC,
formada em Educação Física e Jully Luciano, goleira do Santos FC e estudante de Psicologia. Ambas fazem parte de um grupo de atletas que encontraram no estudo uma maneira de continuarem ativas no mundo do esporte. Afinal de contas, conhecimento é um patrimônio pessoal e intrasferível.
Impulsionada pela impressão de falta de conhecimento entre os profissionais de Educação Física, Ana Carla começou a sua jornada em busca da formação acadêmica em 2017, quando atuava no Flamengo. Sem bolsa de estudos e pagando a mensalidade com o próprio salário, a atleta pensou que não conseguiria chegar ao final do curso.
“Conforme os anos foram passando, o valor da mensalidade foi sofrendo
alterações. Houve momentos em que eu pensei que não conseguiria terminar, porque ficaria difícil pagar a faculdade por ter outros compromissos da vida pessoal para arcar”, confessa ela.
"A galera da sala sempre me dava suporte quando eu perdia matéria devido aos jogos e viagens”, completou.
Ana Carla virou Sereia da Vila em 2021, quando chegou no seu atual clube, o Santos. Como o clube santista possui o patrocínio de bolsas de estudos com a Universidade Santa Cecilia (Unisanta), a atleta pôde voltar para a sala de aula. Foi muito gratificante saber que teria um custo a menos no seu orçamento.
“Acredito que todos os clubes deveriam ter convênios com universidades porque possibilita uma outra oportunidade na carreira e vida dos atletas”, afirmou.
Segundo Ana Carla, muitas acabam não dando continuidade nos estudos ou não começam uma faculdade devido ao desgaste na rotina de treinos e a difícil conciliação com as provas e apresentações de trabalho. A meio-campista se formou no ano de 2023 e acredita ter vivido um período difícil, de muito foco e disciplina. Para ela, o diferencial para conseguir concluir foi o fato de fazer um curso que realmente se via como profissional.
"A trajetória já não é fácil fazendo o que se gosta, imagina não fazendo”, disse Ana Carla.
Apesar de estar em ascensão, o futebol feminino ainda enfrenta dificuldades financeiras e segue em busca de uma maior visibilidade. “Nossa carreira é muito curta e infelizmente não ganhamos rios de dinheiro. Então, pensando a longo prazo, oportunidades de se ter uma formação ou de se fazer um curso técnico torna-se uma via imprescindível para outras oportunidades”, avalia a atleta.
Sonhando em ter seu próprio estúdio para poder levar saúde, qualidade de vida e alta performance para atletas, Ana acredita que o exercício físico bem orientado é o melhor remédio e quer entregar isso para as pessoas. “Quero sempre buscar conhecimento e aprendizados dentro da profissão para entregar o melhor para meus futuros alunos”, conclui.
"Acho importante nos prepararmos e sermos realistas”.
Fugindo do padrão dos atletas que normalmente escolhem a Educação Física ou a Fisioterapia, Jully Luciano, goleira das Sereias da Vila, reiniciou a vida acadêmica no curso de Psicologia da Unisanta no início de 2023. Para ela, a oportunidade oferecida pelos clubes é muito importante.
Jully acredita que no futebol feminino uma porcentagem pequena de atletas conseguirá viver apenas do futebol. E, quando pendurarem as chuteiras, poucas poderão ficar tranquilas sem nenhum tipo de emprego pós-carreira. “Precisamos ter um plano B e a minha mãe sempre dizia uma frase que eu levei para a vida: ‘o conhecimento ninguém pode tirar de você’”, recorda a goleira.
Apesar do interesse vivo pelo esporte, ela também pensa em exercer a psicologia na área jurídica e criminal. Porém, com a experiência pessoal de quase ter desistido do futebol, Jully gostaria de usar a sua profissão para mudar a perspectiva de atletas que já quiseram abandonar a carreira, pois ela acredita que consegue ajudá-los, especialmente considerando que a psicologia é bem defasada quando se trata de saúde mental.
"O sonho é importante, mas precisamos enxergar essa realidade de que precisamos nos preparar para um pós-carreira que talvez não seja apenas vivendo do que o futebol proporcionou financeiramente”.




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