Do ensino público para uma vida na Coréia
- Revista Viral
- 18 de nov. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 25 de nov. de 2022
ovem conta como superou a pandemia para estudar na Coréia do Sul
Último ano do Ensino Médio. Uma garota de 17 anos, contida, sem o brilho nos olhos característicos da idade, que nunca se sentia parte de um grupo específico. Uma jovem repleta de sonhos, que foram deixados de lado pela condição financeira da família e falta de informação. Assim era a vida de Fernanda Bogue na escola estadual em que estudava. Ela sempre se sentiu perdida em classe, via a escola apenas como um local para alcançar as notas para aprovação e nada mais.
Na adolescência, é comum os jovens não se preocuparem tanto com o futuro, mas Fernanda nunca teve uma boa relação com o colégio. Talvez porque enfrentava problemas externos, como depressão e teria se isolado durante boa parte da adolescência de forma proposital. Ela foi diagnosticada aos 17, mas acredita ter vivenciado crises desde os 13 anos. Apenas mais uma adolescente, uma engrenagem, entre tantas, do grande mecanismo conhecido como sistema educacional brasileiro. Mas, como acontece nos melhores roteiros, essa adolescência um tanto solitária teve um ponto de virada radical. Fernanda nunca teria previsto que, aos 20 anos, estaria se preparando para estudar em uma faculdade conceituada de Business na Coreia do Sul.
Com o término do último ano escolar e o avanço da pandemia de Covid-19 no Brasil, muitas dúvidas e incertezas surgiram sobre o próximo passo. Porém, algo se acendeu na mente de Fernanda ao se deparar com um site que listava formas de conquistar bolsas de estudo nos Estados Unidos para jovens de baixa renda. Desde criança ela tinha o sonho de estudar no exterior, algo que sempre pareceu inviável e apenas possível para pessoas com boas condições financeiras.
A garota, então, se prontificou e correu atrás da oportunidade no mesmo dia, até se dar conta de que o processo de seleção para escolas dos Estados Unidos e de outros lugares do mundo é completamente diferente do Brasil. Notas não definem o estudante, e sim o impacto que esse jovem está disposto a exercer no mundo e nas pessoas ao redor. A liderança em projetos voluntários é muito apreciada. Após mais pesquisas, Fernanda descobriu as atividades extracurriculares, realizadas fora da sala de aula e que têm como objetivo auxiliar o aluno a encontrar suas paixões, seja na área acadêmica ou no dia a dia.
Sem pensar muito, a aluna decidiu correr atrás de todo o tempo perdido e sair da zona de conforto. Por coincidência da vida, a área que mais faz o coração da estudante palpitar é a educação. Hoje a jovem consegue ver como o conhecimento exerce grande impacto na vida das pessoas.
“ Educação é um direito humano, que todos deveriam ter acesso. Todo o esforço em busca de tal conhecimento não deveria ser vangloriado, e sim facilitado" - Fernanda Bague
Apesar do isolamento vivenciado no início da pandemia, a jovem pôde se dedicar inteiramente a todo o estudo que havia negligenciado e atividades em prol da sociedade. Ela se inscreveu em um programa de seis meses de duração da ONG Fly Educação, que propaga conhecimento socio-emocional online para jovens da periferia de São Paulo, de forma que cada um consiga entender seu lugar no mundo.

De cara, sentiu que havia encontrado seu lugar. Lá, pôde soltar sua voz, participar do setor de comunicação e foi encorajada a dar opiniões, criar e participar de projetos voltados para a área. Dentre os projetos realizados no período, e dos quais a garota fala com empolgação, estão: Meninas In Tech, que capacita, de forma gratuita, garotas que tenham interesse em computação, robótica e ciência da comunicação; e o projeto Semente, que busca dar orientação a crianças do Ensino Fundamental, especialmente moradores de periferias de São Paulo, sobre quais caminhos seguir para um bom futuro acadêmico.
SUPERAÇÃO
Em sua jornada de autoconhecimento e em busca de atividades que complementem o currículo, Fernanda conheceu pessoas de todo o país na mesma situação, como Fred Ramon, estudante pernambucano de 20 anos que foi aprovado em nove universidades dos Estados Unidos, mas não sabia inglês. Sua história comoveu o Brasil, pois Fred aprendeu inglês sozinho consultando apostilas jogadas no lixo. “Não gosto quando utilizam minha história ou casos semelhantes ao meu como episódios de superação, pois a Educação é um direito humano, que todos deveriam ter acesso. Todo o esforço em busca de tal conhecimento não deveria ser vangloriado, e sim facilitado”, afirma a estudante.
A partir da história de Fred, Fernanda criou o projeto Educalizando, uma ação social responsável por doar apostilas antigas para instituições públicas de ensino, orfanatos, bibliotecas e educandários. O irmão de Fernanda é bolsista em uma escola particular e possuía diversos livros didáticos em perfeito estado, portanto, as primeiras 300 apostilas doadas vieram de sua própria casa.
Fernanda não parou aí, sua meta principal era arrecadar mil livros até o final do ano, um feito que foi possível em apenas uma semana, após postagens na rede social. Outros 600 livros chegaram em suas mãos por meio de uma garota de apenas 10 anos, Giovana, que era presidente do grêmio de sua escola, viu a publicação. Ela mobilizou seus colegas e professores, que se apaixonaram pela iniciativa e ajudaram da melhor forma possível. “Sei que caridade não é uma solução para a educação, mas acredito que esse tenha sido o primeiro passo. Nós precisamos de políticos que estejam lutando em prol do conhecimento.”
PRIVILÉGIO
O voluntariado nunca foi amplamente encorajado na família de Fernanda, porém seu projeto possibilitou uma mudança completa na visão dos parentes. “Somos privilegiados por termos acesso a certas coisas que outras pessoas não têm e infelizmente não temos noção disso. Nossa percepção da importância do ato de doar só muda quando temos contato com pessoas que recebem as doações.” Para a jovem, não há sensação melhor do que presenciar alunos sendo bem- -sucedidos a partir destas oportunidades.
No futuro, ela quer auxiliar e ensinar outros estudantes a lutarem por seus direitos, usando sua plataforma nas mídias sociais como um canhão, dando voz a essas pessoas, mostrando também que é possível alcançar o tão almejado sonho de estudar fora do país, mesmo sem a condição financeira para tal. Segundo Fernanda, existem projetos de mentoria, computação, cursos de verão no exterior completamente custeados por instituições de ensino, tanto em nossa região, como em todos os estados, mas que não são disseminados ao público da forma que deveriam.

DE MALAS PRONTAS
O início de sua nova jornada começou no dia 18 de agosto, dia em que Fernanda embarcou para Daejeon, na Coreia do Sul. Suas expectativas estão nas nuvens, mas apesar de estar animada, a estudante é o nervosismo em pessoa. Seu visto foi aprovado no início do mês e até então a ficha não caiu. A Solbridge International School of Business é uma faculdade muito renomada, principalmente na área de tecnologia, possuindo parceria com grandes empresas mundiais, como a Samsung.
Quando recebeu a confirmação da bolsa, Fernanda sentiu que seus sonhos eram possíveis e que todos os riscos foram para um propósito maior.
“Eu chorei muito e me senti orgulhosa de ter conseguido realizar meu sonho de criança”.
Ela ainda comenta que pretende entrar em um grupo de debate, assim poderá perder a vergonha e se comunicar com os mais diferentes tipos de pessoas, vindas de outros países, com seus próprios costumes e cultura. A pesquisa acadêmica e o trabalho voluntário também estão nos seus planos. A vida de Fernanda, que começou a conquistar o seu lugar no mundo, está apenas começando.
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TEXTO, FOTO E DIAGRAMAÇÃO: LETICIA BENNATON, MARIA EDUARDA MELO E MARINA CAMAÑO
EDIÇÃO DIGITAL: LUCAS MENDONÇA DO NASCIMENTO






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