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Deficiente visual se forma em jornalismo e aprende a trilhar por novos caminhos

  • Foto do escritor: Equipe Agregae
    Equipe Agregae
  • 18 de nov. de 2022
  • 7 min de leitura

Atualizado: 15 de dez. de 2022

Para ir e voltar da Unisanta, Romilson gastava mais de três horas, entre ônibus, balsa e caminhada.


Ao chegar na rodoviária de Santos, em 1996, Regina Feliciano do Nascimento esperava o seu até então marido, Sebastião Varela do Nascimento, chegar na rodoviária para levá-la até a comunidade em que ele morava, em Vicente de Carvalho, no Guarujá. Nervosa e angustiada, Regina andava de um lado para o outro, na expectativa de que seu marido chegasse ao local combinado. Desesperada, já imaginava o pior. “Chorei muito, depois de uns 40 minutos foi que ele chegou”.


Regina é mãe de Romilson Allison Feliciano do Nascimento, de 36 anos, que com apenas três meses de idade foi diagnosticado com glaucoma congênito, doença que provoca a perda total ou parcial da visão. Ela conta que após uma noite de sono observou o seu filho com uma ‘capinha’ no olho. Desesperada, levou-o ao pediatra. Chegando lá, o profissional a encaminhou ao oftalmologista, daí o diagnóstico foi dado. Foi um golpe. Romilson é o filho do meio de dona Regina, nasceu entre Rochérlida, a mais velha, e Rômulo, o caçula. São filhos do pedreiro Sebastião. A família vivia em Aracati, norte do Ceará, cidade conhecida por suas belas praias, como a de Canoa Quebrada, reconhecida internacionalmente. Apesar do renome de suas paisagens naturais, a vida no município era de dificuldades.


Eles habitavam um terreno de 6 metros de largura por 12 de comprimento, com quarto, banheiro e uma cozinha estreitinha, onde só cabiam duas pessoas. No quarto havia um beliche, dividido entre Romilson e seus irmãos, mesa para TV, caixa de roupa e ainda sobrava um espacinho para colocar o colchão de solteiro no chão, onde seus pais dormiam.

Sebastião, na juventude, trabalhava de pedreiro junto com seu pai. Com o conhecimento adquirido no dia a dia das obras, aliado ao auxílio do tio de Regina que era carpinteiro, ergueu a casa, tijolo por tijolo.


Contudo, até por conta da falta de dinheiro, ele e sua família foram morar na casa ainda inacabada, sem porta, com a janela de plástico preto, com um portão de madeira e sem reboco e contrapiso. Após perceber algo estranho nas vistas de seu filho, Regina entrou em desespero, não é para menos, até porque como sua cidade era escassa em muitos recursos, o município mais próximo a se recorrer era a capital, Fortaleza, que fica cerca de 150 quilomêtros de Aracati.



Linha do tempo de sua vida.
Trajetória de Romilson ainda na juventude


A viagem


Além da situação financeira não ser favorável para a viagem, tinha a fila de espera para a cirurgia. Demoraria um ano e meio. Romilson fez sua primeira cirurgia aos 2 anos e 3 meses, no Hospital Geral de Fortaleza, onde ficou internado por pouco mais de um mês. Depois do procedimento, o médico disse que a cirurgia não tinha sido como ele esperava. Entretanto, ele faria uma nova tentativa Depois da cirurgia malsucedida, mas com esperança, Regina, atraída pela fama de que no estado vizinho, Rio Grande do Norte (RN), havia médicos de muito boa qualidade, levou Romilson para lá e então ele voltou para mesa de cirurgia. Aos 3 anos e 6 meses. Mas, mesmo mudando de estado, o resultado esperado não veio e, após o procedimento, o médico revelou que ele não tinha mais chance de enxergar.


“Foi um momento muito difícil para mim, me desesperei. Dali em diante, Romilson sempre andava se escorando nas paredes, um olho era bem grande e outro pequeninho. E as crianças queriam ficar sempre colocando o dedo no olho dele”, lembrou. Apesar da frustração, Regina não desistiu de dar o melhor dos futuros para o filho. Seu esforço buscava compensar uma infância sofrida, cheia de privações. Quando ainda moravam na cidadezinha no norte do Ceará, Romílson trabalhava na rua, com os irmãos.


Na época ele tinha apenas 6 anos e seus irmãos Cherli e Rômulo, 8 e 5 respectivamente. A família tinha dois carrinhos, um para vender bala e cigarro, e outro, para sanduíches, cerveja, refrigerante, água e salgadinho. Os carrinhos eram de madeira, com pneu de bicicleta. A família trabalhava nas tradicionais vaquejadas nordestinas, na qual dois vaqueiros montados a cavalo têm que derrubar um boi, puxando-o pelo rabo, dançam forró, típico da região. Mas a concorrência era grande, e muitas vezes, o dinheiro arrecadado com as vendas mal dava para pagar a reposição do estoque.


Buscando uma condição de vida melhor, Sebastião foi para o Guarujá, deixando seus três filhos e sua mulher em Aracati. Durante três meses trabalhando como frentista, conseguiu dinheiro suficiente para as passagens de ônibus de Regina e suas três crianças.




Amor é o sentimento que define a imagem.
Regina é a maior incentivadora do filho. Batalhou para dar o melhor para Romilson.

“Foram duas noites e três dias, bem difíceis – Romilson tinha 10 anos quando mudou para o litoral de São Paulo; o Lázaro tinha 9, Chérli, 12”, diz Regina. Em questão da superação de Romilson, a mãe dele afirma que “se fosse para sofrer tudo de novo só pra ver como ele é hoje, eu faria tudo de novo".


Novos Ares


Começos são difíceis e o de Romilson e sua família morando no Guarujá não foi diferente. O primeiro impacto foi o frio, uma vez que em Aracati as temperaturas eram bem altas. Ainda com 10 anos de idade, ele era muito apegado à sua mãe, o que consumia o dia de Regina, que além de cuidar dos três filhos, precisava trabalhar para ajudar a sustentar a casa.


“No Ceará eu não tive ajuda e não sabia lidar com a deficiência dele. Eu não gostava que as pessoas olhassem nos olhos dele, por isso colocava um pano. Romilson comia até com as mãos”, lembra sobre a dura infância no nordeste.


No Lar das Moças Cegas, na movimentada avenida Dona Ana Costa, em Santos, que acolhe deficientes visuais, foi onde ele aprendeu a se tornar independente.


O ENCONTRO


31 de maio. A algumas semanas do início dos festejos juninos, o Lar das Moças Cegas entrava no clima da data comemorativa e os enfeites típicos, como de bandeirinhas coloridas, estavam sendo instalados no dia da visita da Viral à instituição. Com diversas atividades realizadas simultaneamente, voluntários e pessoas atendidas se confraternizam, criando laços e promovendo a inclusão de pessoas com deficiência visual, com o objetivo de colocá- -las no mesmo patamar social que as demais.


Da recepção, que fica bem na porta da instituição, dava para se ouvir o burburinho, enquanto a equipe da Viral recebia crachás com a identificação ‘visitantes’. Fomos recebidos pelo coordenador de Comunicação do Lar das Moças Cegas, Kaio Nunes, que após os cumprimentos de boas-vindas nos deu uma recomendação valiosa: “Sempre andem pela direita”. Ao subir a escadaria, fomos levados por ele até a sala de música, onde acontece os ensaios da Banda do Lar, composta por deficientes visuais.


O local remetia a um ambiente escolar, com carteiras e cadeiras, porém o diferencial, que justificava ser musical, eram os diversos violões, com distintas tonalidades de marrom, pendurados na parede oposta as mesas, juntamente com pequenas caixas de som, havia também um piano preto. O lugar, que costumeiramente serve de ensaio para o maestro e sua banda, seria o ponto de encontro com Romilson, que conhece bem o estabelecimento, já que é um dos integrantes da banda. A espaçosa sala é equipada com vários instrumentos musicais com uma iluminação fosca e as janelas fechadas. Após alguns minutos, Romilson chega, com o uniforme da instituição que frequenta há 24 anos, de óculos escuros e com um short cujo logotipo é da Prefeitura de Santos.


Já acomodado no assento, ele é estimulado a lembrar da sua vida na cidade natal, onde os recursos eram escassos, sem nenhuma escola que aceitasse a condição dele e com extrema dependência para frequentar as casas de seus parentes. “Minha mãe ficava me acompanhando durante a aula toda, mas depois me deixou sozinho”, fala Romilson, sobre seu início no Lar das Moças Cegas. No Guarujá, fez da 2.ª à 8.ª séries, na Escola Municipal 1.º de Maio. Ele também lembra de seu caminho para concluir o Ensino Médio, no qual precisou fazer o Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos). “Concluí o supletivo entre 2010 e 2011 e fiz o Encceja.


Acertando um número mínimo de questões, você eliminava as matérias”, completa. Finalizado o Ensino Básico, Romilson queria ir além e para tal, sua mãe entrou em cena mais uma vez. Fã de rádio, Romilson queria muito fazer jornalismo. Desta forma, precisou fazer dois vestibulares, para, então, conseguir a tão sonhada bolsa de estudos. “Fiz o vestibular e na segunda vez, passei”, comenta. Para ir e voltar da Unisanta, Romilson gastava mais de três horas, entre ônibus, balsa e caminhada. Um intinerário arriscado para alguém que têm deficiência visual.


O assalto


Não bastassem as distâncias e o perigo que essas viagens causavam, Romilson passou por um susto tremendo: foi assaltado no centro de Santos, após sair de mais uma aula, por volta das 22h20 da noite. Na altura da Avenida Senador Feijó, uma moça se aproximou e ofereceu ajuda a Romilson para atravessar a rua. Depois da ajuda, a “simpática” moça, pediu seu celular para fazer uma ligação de urgência, pois o seu havia descarregado. Ele, num sinal de gratidão, emprestou o seu equipamento da marca Nokia, na qual não fazia nem duas semanas que estava com ele.


Quando se deu conta ela já tinha fugido, deixando-o estático. Um cidadão, que passava pelo local, percebeu algo estranho, foi aí que Romilson falou: “uma moça acabou de levar meu celular, ela levou meu celular!”. Já formado, Romilson busca ganhar novos estímulos. “Ele é muito determinado. Sempre digo a todo mundo, se fosse para sofrer tudo o que nós sofremos pra ver ele como ele é hoje, eu faria tudo de novo”, fala Regina, que se emociona ao fazer tal relato.


E conclui, ao comentar que tem uma “sensação de orgulho”, ao ver seu filho na sociedade. “Sair de casa, ir pra casa da namorada, ir pro shopping, Jequitimar. Eu fico desesperada, mas ele volta. Ele é muito guerreiro, ‘me orgulho muito dele’”, finaliza Regina com os olhos começando a marejar.


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TEXTO: CARLOS ROSENO E LUÍS HENRIQUE SANTANA

DIAGRAMAÇÃO: MATHEUS ALVES TERRAS

FOTOS: MATHEUS ALVES TERRAS


EDITOR DIGITAL: LEONARDO CRUZ

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