“A recuperação de áreas degradadas é fundamental para preservar os serviços ecossistêmicos”
- Equipe Agregae

- 8 de abr. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 15 de abr. de 2025
Afirma o biólogo marinho Willliam Shepis em entrevista para o Agregaê
Por Yasmin Santos das Mercês
Os manguezais são ecossistemas costeiros de extrema importância ambiental, funcionando como berçários naturais para diversas espécies marinhas e atuando como barreiras naturais contra enchentes e erosões. Além disso, são fundamentais na filtragem de poluentes e na manutenção da qualidade da água nos estuários. Sua preservação é essencial para o equilíbrio ecológico e a proteção das comunidades costeiras.
Na Baixada Santista, o Instituto EcoFaxina – Limpeza, Monitoramento e Educação Ambiental atua na preservação dos mangues desde 2008. Com o objetivo de combater a poluição marinha, o instituto desenvolve projetos, pesquisas e políticas públicas para reduzir o aporte de plástico no oceano. A estratégia principal inclui a contenção de resíduos sólidos flutuantes, a recuperação de áreas degradadas e a redução de ocupações irregulares em áreas de preservação permanente.
O fundador e atual diretor-presidente, William Shepis, idealizou o projeto Sistema Ambiental de Coleta de Resíduos durante sua formação em biologia marinha pela Universidade Santa Cecília. O projeto prevê a instalação de ecobarreiras e a recuperação de áreas degradadas de mangue, visando reduzir a poluição marinha por plástico no litoral paulista e gerar renda para moradores de palafitas.
"A gente busca promover uma mudança de consciência nas comunidades sobre a importância da recuperação ambiental", Willian Shepis
Segundo William, “o mangue é um importante filtro biológico para a matéria orgânica que chega ao estuário. A recuperação dessas áreas degradadas, especialmente aquelas ocupadas por moradias em palafitas, é fundamental para preservar os serviços ecossistêmicos”.
Para o Instituto, que é uma associação civil sem fins lucrativos, a restauração de áreas de mangue é crucial para mitigar o impacto ambiental que esse projeto traz para essas áreas, quando elas deixam de ser destinadas à recuperação ambiental.
61.769 kg é a quantidade (até fevereiro de 2025) de resíduos sólidos coletados em 105 ações voluntárias no manguezal

Quais os maiores desafios enfrentados na recuperação de áreas degradadas de mangue?
Os maiores desafios para a recuperação de áreas degradadas de mangue, consiste principalmente na questão dessas áreas serem muito vulneráveis. Quando falamos na recuperação dessas áreas, a ocupação irregular é exemplo da falta de fiscalização, onde as regiões são desocupadas com projetos habitacionais, e posteriormente são reocupadas, resultado pela falta de presença do poder público.
Quais são os principais desafios na implementação e manutenção das ecobarreiras em Santos?
O principal desafio para implementar as ecobarreiras é estabelecer um acordo de cooperação com as prefeituras, garantindo o uso diário de uma área na margem estuarina para trabalhar com embarcações e ter segurança jurídica. Esse acordo visa atrair investidores privados para financiar equipamentos de reciclagem, ecobarreiras, embarcações e a instalação dessas estruturas no estuário. O objetivo é criar uma frente de trabalho composta por moradores de palafitas, formalizada pelo projeto Sistema Ambiental de Coleta de Resíduos.
Como o Instituto EcoFaxina avalia o impacto do projeto Parque Palafita em Santos? Vocês acreditam que é melhor investir na revitalização das palafitas ou realocar as famílias para outras áreas mais estruturadas?
A revitalização das áreas de palafitas e a relocação das famílias para outras áreas mais estruturadas é um desafio complexo. Embora as áreas mais estruturadas possam parecer uma solução, elas também trazem impactos econômicos e de difícil manutenção, especialmente quando se trata de construções sobre áreas contaminadas. Nós entendemos que a moradia deveria estar sendo prevista e planejada para áreas já consolidadas da cidade e o nosso papel como agente que busca a recuperação dessas áreas degradadas, tendo em vista os serviços ecossistêmicos.
O projeto da Base Operacional de Santos já está em andamento? Como ela contribuirá para a sustentabilidade da região?
O projeto da base operacional do Instituto EcoFaxina está em andamento na Prefeitura de Santos, com o objetivo de criar uma estrutura para coleta e reciclagem de resíduos nos mangues da região. Nessa base, seria realizado o beneficiamento do resíduo retirado dos mangues e das ecobarreiras. O objetivo é gerar renda para as famílias que vivem em palafitas por meio da reciclagem do resíduo aproveitável, enquanto o rejeito seria destinado ao aterro sanitário em parceria com a Empresa de Limpeza Urbana.
Como tem sido a cooperação com a Prefeitura de Santos e outras instituições acadêmicas para viabilizar as ações do Instituto?
O Instituto está trabalhando em parceria com a Prefeitura de Santos em um projeto de recuperação ambiental, mas a cooperação está ocorrendo de forma lenta. Estamos aguardando a assinatura de um acordo de cooperação para viabilizar investimentos e operacionalizar o projeto. O Instituto tem uma boa relação com instituições acadêmicas e participa de pesquisas sobre a problemática do lixo no mar. Nós temos parcerias com instituições, como o IPEM para colaborar em pesquisas e diagnosticar a contaminação por microplásticos no estuário. O objetivo é promover a recuperação ambiental e transformar dados em artigos científicos, trabalhando em conjunto com prefeituras e instituições de pesquisa.
De que forma o Instituto EcoFaxina avalia a relação entre ocupações irregulares nos manguezais e a degradação ambiental?
As ocupações irregulares são responsáveis por grande parte do impacto ambiental no estuário de Santos-São Vicente, incluindo poluição por resíduos sólidos e esgoto não tratado. O Instituto busca implementar um projeto na região, envolvendo as comunidades locais como protagonistas na recuperação ambiental. A ideia é que as comunidades, que são as principais responsáveis pelo impacto ambiental, se tornem atores no processo de transformação e recuperação da região. Eles seriam os principais agentes de mudança, atuando diariamente nas áreas degradadas e contribuindo para a recuperação ambiental.

Como funciona a capacitação dos agentes ambientais de coleta de resíduos, e qual o impacto desse trabalho na comunidade?
O Instituto EcoFaxina mantém um diálogo constante com as comunidades locais, atuando há mais de 15 anos na região. Nós somos até conhecidos na região, como “os meninos da biologia”, tendo em vista toda a nossa atuação voltada para a questão da ecologia, da biologia marinha, da recuperação ambiental. Nós vemos que a comunidade respeita muito o trabalho do Instituto, que é um trabalho técnico, que não tem viés político, com algum interesse que não seja essencialmente, a recuperação ambiental e a geração de emprego e renda para esses moradores. A gente busca promover uma mudança de consciência nas comunidades sobre a importância da recuperação ambiental, nós trabalhamos em prol da capacitação de moradores como agentes ambientais, prontos para atuar nas praias e manguezais da região.




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