Democratização do corpo
- Revista Viral
- 13 de dez. de 2023
- 4 min de leitura
CURVILINEOS, ALTOS, MAGROS, GORDOS, COXAS GROSSAS BRAÇOS FINOS, CINTURAS PEQUENAS E BUNDAS GRANDES
Texto: ISABELLA MONTEIRO, JOÃO SANITA
fotos: MARIAN CURSINO
Na esquina de uma das ruas mais movimentadas do bairro do Humaitá, em São Vicente, a casa de paredes roxas, portão alto preto, chama atenção de quem passa. A placa na lateral escrito Expodance em letras douradas revela que o lugar é um espaço de dança. Antes mesmo de cruzar o portão de entrada, já é possível ouvir os acordes da música clássica, já habitual para a vizinhança. Ao longo do dia meninas de collant preto, meias-calças cor de rosa farão a coreografia do entra e sai, dando vida e movimento ao ambiente.
Dentro da casa o som parece dominar todo o ambiente. Além dele é possível ouvir uma voz masculina fazendo a contagem. No mesmo ritmo, ouve-se o barulho dos pés das bailarinas arrastando as sapatilhas sobre o linóleo cinza.
Oito bailarinas se posicionam perfeitamente ao longo da barra pintada à tinta óleo preta. Cada uma adota um estilo de penteado, alguns cabelos são presos em forma de coque, outros presos a um rabo-de-cavalo. Assim como os penteados, os corpos também são diversos: miúdos, curvilíneos, altos, magros, gordos, coxas grossas, braços finos, cinturas pequenas e bundas grandes, são algumas características físicas que envolvem os corpos das bailarinas da escola de dança. Em alguns, marcas de celulite e estrias teimam em transparecer sob a meia calça.
Catarina Albuquerque tem 1,55 metro e algum sobrepeso para os padrões da modalidade. O corpo cheio de curva, destoa das colegas de classe, todas magras e longilíneas, o que muitas vezes fez Catarina sentir-se diferente, um sentimento que crescia com a pressão dos professores para que emagrecesse. O resultado foi um quadro de total retração e desencanto com o mundo das sapatilhas.
“Eu me fechei, não conseguia emagrecer e aquilo doía muito, se não fossem as meninas preocupadas comigo, eu teria saído muito antes de me formar”, afirma a jovem.

A crítica expõe uma questão ainda sensível no mundo da dança: o balé não é inclusivo. Mesmo que academias menores como a Expodance se abram para corpos fora dos padrões considerados “ideais”. É raro ver um corpo gordo nos espetáculos das grandes companhias de dança. Quanto maior a reputação do corpo de baile, mais o elenco de bailarinos exibe corpos esculpidos e obedientes a um mesmo padrão estéticos.
A falta de democracia para os corpos foi o que abreviou a carreira de Regiane Campos. Do alto do seu 1,80 metro, cabelos escorridos escuros batendo na cintura, pele clara e muitas curvas que lembram um violão, Regiane atrai olhares por onde passa.
E apesar da aparência atraente, ela também não escapou de comentários maldosos envolvendo seu corpo. Quando foi bailarina, na década de 1990 e início dos anos 2000, as curvas generosas de suas coxas sempre entravam na pauta dos professores e jurados das competições.
“Um jurado uma vez escreveu na súmula que eu deveria sair do balé e começar a dançar zumba, que combinava mais com o meu estilo de corpo. Aquilo me machucou muito, foi horrível”, lembra Regiane.
Já Camyla Cruz mantém em forma o biótipo desejado e esperado para uma bailarina clássica: 1,70 metro de altura, peso em torno dos 55 quilos, músculos tonificados, braços finos, mãos delicadas e uma curvatura do pé de dar inveja. Nem assim ela escapou de comentários maldosos sobre seu corpo.
Na adolescência, a jovem ganhou curvas e era constantemente abordada pelos professores sugerindo que controlasse mais a alimentação ou fizesse dieta.
“Se eu não tivesse a cabeça no lugar possivelmente desenvolveria algum transtorno, como algumas tiveram. Era um assunto proibido, mas nós sabíamos que acontecia com mais frequência que gostaríamos”, comenta a jovem.
Mudança
O dono da voz potente que se ouvia logo na entrada da Expodance ganha um rosto e um topete impecável. É James Rossi, professor da academia há ..... anos. A pele clara, braços definidos e as pernas musculosas reconhece a dificuldade do balé, especialmente do estilo clássico em se abrir para os corpos fora dos rígidos padrões.
“É muito difícil vermos corpos diferentes no balé, existe infelizmente uma padronização e eu por muitos anos acabei perpetuando-a”, ressalta o bailarino, que se formou na primeira turma do Balé Jovem de São Vicente, em 1995.
Assim como a maioria dos professores, o coreógrafo pegava no pé de suas alunas para que emagrecessem e chegassem ao um corpo ideal, que ele acreditava ser o adequado para a modalidade.
A “ficha” só caiu no dia que foi questionado por uma ex-alunas. Na conversa, em tom amistoso, ele percebeu que o que exigia de suas bailarinas era sem fundamento. Além de desnecessário, era algo que as machucava. James começou a mudar o seu pensamento, deixou as falas gordofóbicas e a pressão estética de lado, dando palco principal ao que importava: a dança.
O balé clássico, infelizmente ainda não tão democrático a todos, passou com outros olhos o que sempre esteve a sua frente, a diferença.
Mas nada mais importava para aquelas meninas, agora mulheres, com corpos desiguais, mas que encontraram na dança um ponto de paz, alegria, acalento e uma família. E se passar na em frente à casa roxa, de portão preto e com uma placa preta na lateral com dizeres em dourado, escutará a música clássica transbordando do ambiente.

"Um jurado uma vez escreveu na súmula que eu deveria sair do balé e começar a dançar zumba que combinava mais com meu estilo de corpo".
Regiane Campos
Bailarina




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