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Mudança de Ares

  • Viral
  • 4 de nov. de 2022
  • 5 min de leitura

Atualizado: 25 de nov. de 2022

DISCUSSÃO E SEPARAÇÃO


A DISPUTA CONSTANTE ENTRE APOIADORES DE DIREITA E ESQUERDA


Numa selva de cliques, compartilhamentos externos, reações de amor, risada, surpresa, tristeza e raiva, o cenário dos “facebookers”, “instagramers” e até “tiktokers”, poder ser enxergado através dos muitos comentários em postagens. Mas esse conflito não se limita às redes.


No primeiro grande evento no Brasil pós-pandemia, com mais de 300 mil pessoas pulando e se divertindo , o festival Lollapalooza foi marcado por diversas manifestações políticas. Uma delas foi protagonizada pela cantora Pabllo Vittar, que levantou uma bandeira com o rosto do ex-presidente Lula, pré-candidato à presidência. Os engravatados do partido de Bolsonaro pediram intervenção ao TSE e que fosse aplicada uma multa no festival e aos cantores, alegando que as manifestações eram propaganda eleitoral irregular e antes da hora.


Embora o TSE tenha acatado o pedido, logo veio a desistência do caso.

Entre uma atração e outra, o coro contra o atual presidente do Brasil, foi “hit” do festival, com gritos de “Ei Bolsonaro, vai tomar…” e “Fora Bolsonaro”


O cabo de guerra entre "coxinhas'' e "mortadelas" não está só no mundo físico. Como tudo que gera fúria também gera engajamento, essa guerra também se faz presente na internet.


FIGHT NA NET


Como em qualquer floresta cheia de criaturas ímpares, o comportamento que se vê no mundo virtual, é feroz, sem piedade, rápido e cortante, mas ao contrário da briga entre animais , marcada por sangue, vísceras e selvageria, no espaço criado por Zuckerberg prevalecem confrontos intermináveis de comentários ácido, ofensas pessoais e até analogias com doenças e figuras diabólicas, tudo para emplacar a melhor defesa a um político ou partido de estima.


“Picanha era só pra ele mesmo kkkkkk… porque os pobres daquela época do Lula continuam pobres” opina uma mulher, entre os 30 e 40 anos, mãe de três, nos comentários de um post no Facebook que mostrava Lula com diversas carnes de primeira enquanto Bolsonaro aparecia com as ossadas traduzindo que com o me de Lula carnes de qualidade eram mais acessíveis no mandato de Bolsonaro, Os ossos seriam a única alternativa para ocupar o espaço da proteína na marmita do cidadão comum.


Uma representação rasa e que não necessita de PHD ou nível superior de escolaridade, o ambiente em que essas brigas são geradas pode ser considerado “chulo", mas é pretensamente democrático. Ainda na parte dos comentários do mesmo post, outra mulher rapidamente respondeu “e com Bolsonaro mais pobre ainda”. Pela foto, a dona da opinião contundente tem entre 30 e 40 anos, mãe e de classe média. Uma terceira mulher também destila sua opinião: “Uai, mas (sic) ele não é culpado não”. Quem sabe num mundo utópico, elas poderiam até ser amigas.


São pessoas reais, com trabalho, família, e responsabilidades diversas, que compartilham a qualquer custo opiniões e ideologias em uma rede social que há tempos deixou de ser “tendência” entre os mais jovens.


“ A gente ficava discutindo no Facebook, mesmo morando juntos. Ele falava: ‘Vê lá o que eu comentei no seu. E eu fui ficando com ódio”, relata uma carioca que cansou de brigar com o namorado por política. Uma estudante de Direito, contou no Twitter que saiu do grupo da família por briga políticas:


“O grupo tem três anos e basicamente só servia para desejar feliz aniversário, combinar almoços. Depois alguns começaram a postar sobre política e isso gerou discussões”.

BRIGAR E REATAR - CONFRONTOS QUE ÀS VEZES TEM CHANCES


Atire a primeira pedra aquele que nunca discutiu ou teve que se segurar para não perder uma amizade por conta de eleição?


Amizades desfeitas e relacionamentos familiares abalados viraram lugar comum nesses momentos de polarização. 51% dos brasileiros que usam Whatsapp já desistiram de fazer um comentário ou compartilhar conteúdo sobre política para evitar brigas com familiares e até mesmo amigos. Quanto mais perto da votação, mais minado o campo fica.


Segundo estudos da Toluna, uma empresa de pesquisas, com participação de 533 pessoas, 37% dos entrevistados já discutiu devido às eleições de 2018. Após o término da disputa, 52% deles contaram que as diferenças foram superadas e o relacionamento voltou ao normal.


Em um mundo que sofre diariamente com o excesso de informações, onde 60 segundos na web consistem em mais de 500 horas de conteúdo carregado no YouTube, 695 mil histórias compartilhadas no Instagram e quase 70 milhões de mensagens enviadas via Whatsapp e Facebook Mensager, filtrar e assimilar cada ideia que surge nas redes sociais, quase que a todo segundo, não é uma tarefa nada fácil. Ainda mais se considerando o fato de que a popularidade ganha força nesse cenário caótico.



CARA E COROA- MESMAS IDEIAS, JEITOS DIFERENTES


“Já quis ser presidente do Brasil”, diz Aline Cabral, 24 anos, que hoje preside o centro de estudantes de Santos e se encantou com a política desde muito nova.Trabalha na área da saúde, e beneficiada pelo FIES, ela revelou que só se viu e se sentiu plenamente pertencente ao ambiente democrático quando ingressou em uma universidade federal.


Hoje administradora e colaboradora assídua das demandas de esquerda, mais precisamente do Partido dos Trabalhadores (PT), Aline destaca que desde pequena, convive com ideais políticos distintos e nem sempre bem delimitados dentro de casa. “Meu pai é eleitor fiel do PSDB e minha mãe é lulista”, afirma.


Sobre as manifestações positivas em favor do PT, a líder estudantil considera que expor suas ideias e defesas no Facebook nunca foi uma opção. De maneira clara, diz preferir mil vezes um olho-no-olho com “quem está disposto a sair de suas amarradas…"

Já Bruno Secco, 29 anos, adepto do viés de direita e que foi o candidato mais jovem entre os mais votados para a Câmara de Santos em 2022, critica as bandeiras da esquerda.


“Enquanto perdem tempo com debates sem sentido, ainda temos 100 milhões de brasileiros sem acesso à rede coletora de esgoto. Qual a nossa prioridade? Ele acusa a esquerda de procurar manter a população dependente do estado e do assistencialismo.


Coligado ao Partido Progressista (PP), Secco diz gostar de debates que agreguem, construam e permitam avançar sobre alguma questão. Em uma de suas postagens no feed do Instagram, no entanto, repostou um publicação da página do “PT no Senado” com o seguinte comentário: “Quando a piada vem pronta”


Partindo do ponto que mesmo com ideais distintos, os personagens possuem a mesma ideia de mundo quando o assunto é o ambiente hostil, os haters, a política do cancelamento, que acabam sufocando os usuários e fazendo com que suas redes sociais se assemelham a um campo de batalha sem limites.


O OLHAR DO PROFISSIONAL - AQUILO QUE NÃO REPARAMOS


A cientista política Clara Versiani afirma que esse radicalismo impede que algum consenso seja alcançado. “ As discussões que se dão sem mediação dificilmente chegam a alguma concordância. Para haver um acordo, é necessário favorecer a colocação das posições e principalmente do diálogo”, salienta Clara.


Diante do imenso antagonismo dos partidos, as brigas geralmente são fomentadas em ambientes que possuem a rivalidade como uma base muito enraizada nas ideologias. “ As lideranças políticas acabam influenciando muito os apoiadores. Um comportamento que é voltado para o conflito, desrespeito e ofensas, naturalmente norteará os eleitores”, destaca.


Assim como uma disputa de futebol, em que a competição é a alma da partida, na política essa dinâmica também é notada. A rivalidade gera prazer nos indivíduos e, embora o ambiente político não deva ser marcado por tantos conflitos, o ideal seria que eles desapontaram em debates marcados pela liberdade de expressão e respeito


TEXTO: FERNANDA LIMA, JULIANA CÉSPEDES E LAURA LAMOUCHE

FOTO: FERNADA LIMA

DIAGRAMAÇÃO: JULIANA CÉSPEDES

editor digital: GUILHERME CHINARELLI

 
 
 

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