Ninho em chamas: a tragédia do Urubu e Suas Sombras Persistentes
- Revista Viral
- 13 de dez. de 2023
- 4 min de leitura
Quatro anos depois, o que mudou no Flamengo e qual é o legado da tragédia que ceifou a vida de dez jovens talentos do futebol?
Texto: João Olmos e César H. Corrêa
Pesquisa: Pietro Falbuon

Era uma manhã de sexta-feira, dois dias após um forte temporal cair sobre o Rio de Janeiro, causando um rastro de destruição. A Zona Oeste ainda se recuperava das duas mortes ocorridas após fortes chuvas derrubarem uma casa na Barra da Guaratiba. Entretanto, não havia tempo para lamentação.
A pouco mais de nove quilômetros dali, no bairro de Vargem Grande, o sol mal havia surgido e uma luz já brilhava como grandes labaredas de fogo ardente. O céu do Rio se tingiu de cinza e vermelho às 5h17 daquele 8 de fevereiro de 2019.
O Centro de Treinamento Presidente George Helal, também conhecido como Ninho do Urubu, em que outrora ecoara risos e esperanças, era agora um cenário de desespero e tragédia. O fogo que tomou o CT do Clube de Regatas do Flamengo transformou o que deveria ser um lar para jovens talentos do futebol brasileiro em um lugar de pesadelo. A tragédia deixou 10 mortos e 3 feridos, todos atletas das categorias de base do clube.
Embora tanto a tragédia de Barra de Guaratiba quanto a de Vargem Grande tenham tido consequências severas, as chuvas que precederam o fogo impediram que o incêndio causasse danos ainda maiores. Devido à tempestade, os atletas receberam folga e aqueles que moravam na “cidade maravilhosa” puderam voltar para as casas de suas famílias horas antes do incêndio..
Vinicius de Azevedo, de 21 anos, que integrava o time de jovens atletas do Rubro Negro ainda sente os impactos da tragédia, mesmo que tivesse de folga no dia.
“Para mim foi um grande livramento; eu ia dormir lá, mas a tarde ‘deu algo’ em mim e decidi ir embora”, conta.
“Hoje tenho muito receio de fogo, pois é algo que me traz essa lembrança. O incêndio começou ao lado do quarto que eu dormia todos os dias e meu melhor amigo acabou sendo uma das vítimas”, lamenta.

Vinicius de Azevedo, (enquanto ainda jogava pelo Flamengo).
Entretanto, a sorte não funcionou de forma igual para todos aqueles meninos. Filipe Chrysman Lima, de 21 anos, ainda se lembra com detalhes da fatídica noite. “O fogo começou no meu quarto e daí foi se espalhando, foi tudo ficando preto e no desespero até tentei apagar as chamas com água do bebedouro”.
O jovem conta que muitos dos que morreram demoraram para perceber o que realmente estava acontecendo. “A gente tinha 15 e 16 anos, tudo moleque na época brincando de madrugada. Penso até hoje que muitos escutaram os gritos, acharam que era alguma brincadeira e aí acabaram sufocando com a fumaça”.
O incêndio teve início devido a um curto circuito em ar-condicionado do alojamento - local este que era provisório, já que o CT passava por reforma e os atletas seriam realocados na semana seguinte.
Os dormitórios eram, na verdade, containers - inóspitos não só para atletas, mas para qualquer um - que ficaram destruídos. O revestimento metálico das paredes se retorceu, o ar-condicionado derreteu e o teto envergou até não sobrar nada.
Os vizinhos do Ninho do Urubu, que antes ouviam os festejos dos jovens após uma grande vitória do time que os deu uma oportunidade de mudar de vida, tornaram a ouvir os gritos, explosões e os diversos sons das estruturas se estilhaçando em meio ao calor.
A descrição dantesca da cena leva a questionar o porquê jovens, muitos deles de baixa renda, vindos de outros municípios e estados, iriam viver em locais com alto risco de acidentes. Para o jornalista Mauro Beting, o sonho e a promessa de um futuro mais próspero é o maior atrativo. “Hoje, numa situação mais difícil na família, você vai arriscar no seu talento. É um risco, mas se der certo não significa ser um Vinícius Júnior. De repente, jogar na segunda divisão de Portugal, na terceira divisão da Itália, até mesmo na segunda divisão no Brasil, já pode dar um futuro garantido para o jovem, sua família, netos, bisnetos e até tataranetos”.
Em meio aos destroços e mortes, a procura por um culpado é inevitável. A instituição Flamengo surge, quase que naturalmente, como “alvo” a levar a culpa pelo incêndio, já que colocou jovens de 14 a 16 anos em alojamentos inapropriados. Entretanto, o advogado desportivo João Gazzola vai além e indica que a culpa deve ir além do Rubro Negro.
“A tragédia foi uma questão criminal muito além da desportiva. É preciso atribuir a negligência e irresponsabilidade a alguém ou às pessoas responsáveis, inclusive os dirigentes do Flamengo”, explica.
Passados quatro anos da tragédia, embora quase todas as famílias das vítimas tenham sido indenizadas pelo Flamengo - exceto a de Christian Esmério, que não negociou a indenização com o clube -, nenhuma das 11 pessoas indiciadas pelo Ministério Público foi condenada.
De lá para cá, o que mudou? Gazzola explica que nenhuma mudança muito significativa ocorreu já que as inspeções, pela legislação, só ocorrem em edificações como o Ninho em casos de denúncia.
“O Ministério Público, as prefeituras, a Vigilância Sanitária, os bombeiros, todas as autoridades competentes deveriam fazer uma fiscalização efetiva. Eu não diria que a legislação mudou, mas diante de um caso tão triste e trágico, espero que fique um legado: maior preocupação com a segurança”, conclui o advogado.
O processo do incêndio segue sem desfecho nos meios legais, mas segue com um legado triste para jovens atletas do futebol, sobretudo aqueles que acabaram perdendo amigos e colegas de profissão em meio às chamas.
“Eles estão sempre comigo, principalmente nos momentos de dificuldade. Sei que quando passo por um período difícil, naquele momento, tem alguém passando por lá. Quando olho para camisa com a foto dos meninos, me lembro de nunca desistir, por eles”.

(Com os colegas de equipe que perdeu no incêndio estampados na camisa, Vinicius encontra no luto a vontade de persistir em busca dos sonhos)...




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