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“Não importa quanto lixo tenha, importa quanto lixo conseguimos retirar”

  • Foto do escritor: Equipe Agregae
    Equipe Agregae
  • 8 de abr. de 2025
  • 9 min de leitura

Alessandra Campos criou um projeto que já tirou toneladas de lixo das praias da Baixada Santista


Por Larissa Serra


                                  Voluntários em ação promovida pelo projeto Formiguinhas da Praia                                                                                 Foto: Fred Casagrande/PMPG
Voluntários em ação promovida pelo projeto Formiguinhas da Praia. Foto: Fred Casagrande/PMPG

Ao comprar seu primeiro apartamento em Praia Grande, no litoral de São Paulo, Alessandra se deparou com um cenário de poluição nas praias: sacolas plásticas, bitucas de cigarro, latas vazias. Recolhia o lixo que encontrava na orla, mas um dia teve uma ideia diferente.


Fez um post no Facebook e no dia seguinte, mais de 20 pessoas haviam entrado em contato. A primeira ação em grupo reuniu apenas cinco pessoas. Hoje, o Formiguinhas da Praia conta com mais de 400 integrantes voluntários. O projeto já recolheu toneladas de lixo e atua em diferentes áreas da Baixada Santista.


A limpeza das praias é apenas uma parte do trabalho. A força das formiguinhas também está em consciência ambiental, hábitos sustentáveis, criar vínculos entre a vizinhança e acolher quem está chegando.


Em entrevista, Alessandra relembra como tudo começou, compartilha histórias e reflete sobre os desafios de liderar o projeto. Confira:


Como nasceu a iniciativa do projeto Formiguinhas da Praia?


Eu tinha um incômodo, porque eu tenho um apartamento aqui em Praia Grande, desde 2005. Eu sempre recolhia o lixo que encontrava na praia. Um dia, pensei: se eu convidar mais pessoas pra caminhar comigo, a gente vai recolher mais lixo.


Postei no Facebook, deixei meu WhatsApp, e no dia seguinte tinha mais de 20 pessoas me procurando. Na primeira caminhada fomos eu e mais quatro formiguinhas. Cada uma com duas sacolinhas, recolhemos dez no total.


A gente animou e o grupo foi crescendo. No começo a gente abaixava pra pegar o lixo, hoje a gente usa um pegador de objetos. A gente que compra, com o nosso dinheiro. Parece que vira mania. É muito divertido. Quanto mais gente tem, melhor fica.


Quando está só você, tudo bem, tem hora que você quer ir sozinha. Mas quando vai três, quatro, cinco, é muito divertido. Uma acha um negócio inusitado, vira uma festa. Fazem vídeo, dança. Eu acho que, quanto mais gente, é mais divertido.


De onde surgiu a escolha do nome “Formiguinhas da Praia”?


Não foi muito uma ideia minha. Uma pessoa falou: “nossa, isso aqui é trabalho de formiguinha”. Aí eu falei: a gente tem que dar um nome pro grupo. Coloquei no grupo do WhatsApp: “me deem sugestões de nomes”. Veio “Formiguinhas do Canto do Forte”, mas eu falei: não, se a gente quiser abrir em Mongaguá? Então vamos nos limitar em “Formiguinhas da Praia”. Colocamos em votação e esse ganhou.


Quem são os principais colaboradores e apoiadores do grupo?


Tenho mais ou menos umas 20 pessoas na linha de frente. Cada praia tem uma administradora, algumas têm duas. Tenho três pessoas que cuidam das redes sociais comigo. E duas formiguinhas que começaram comigo desde o primeiro dia. Hoje já temos mais ou menos umas 400 formiguinhas cadastradas. Muita gente está preocupada, sim, com o meio ambiente. E muitas dessas pessoas vieram morar em Praia Grande na pandemia, não tinham uma rede de apoio. Encontraram isso no grupo Formiguinhas. Elas viajam juntas, vão pra baile, pra churrasco. Muitas deixaram a depressão de lado depois que encontraram o grupo. Hoje elas são muito unidas.


        Voluntários do projeto Formiguinhas na Praia realizam mutirão de limpeza em praia do litoral paulista              Foto: Amauri Pinilha - PMPG
Voluntários do projeto Formiguinhas na Praia realizam mutirão de limpeza em praia do litoral paulista Foto: Amauri Pinilha - PMPG

As ações do projeto são voltadas mais para os adultos ou para as crianças?


Na educação das crianças. Os adultos que participam já têm uma consciência ambiental. Eles sabem o impacto do lixo na vida marinha e agem por amor ao mar. Já com as crianças, a gente ensina mesmo. Mostro, por exemplo, uma bituca de cigarro e explico que ela pode poluir uma piscina inteira. A criança entende, aprende e ainda corrige os pais. Elas são muito receptivas. Às vezes, até me levam até os pais para mostrar o lixo. Isso gera um incômodo nos adultos, que passam a recolher o que deixaram na areia.


Como é liderar uma iniciativa voluntária de grande alcance como essa?


Eu ainda não tenho noção da dimensão. As pessoas falam “você viu o que tá fazendo?”, mas pra mim, tudo foi acontecendo naturalmente. Comecei no Canto do Forte, depois veio Guilhermina, Tupi… Hoje estamos em toda a Praia Grande. Também temos equipes em São Vicente, Mongaguá, Itanhaém e quase abrindo na Ilha Comprida (faltam só dois voluntários). Já estamos nos trâmites para virar uma ONG.


Mas nunca foi planejado. Eu abracei tudo que foi surgindo. E eu conheço cada formiguinha pelo nome, sei um pouco da história de cada uma. Quando não conheço, peço ajuda para descobrir. Eu trabalho com pessoas, não com números. O foco não é só recolher lixo, é fazer bem para elas, pra cidade e pra praia.


Como você reage a ideia de que esse tipo de ação seria como “enxugar gelo”?


Essa expressão já me causou muito problema no grupo, porque no próprio grupo tinham formiguinhas que falavam “Estamos enxugando gelo”. A Yara, que é uma ADM da Praia Real, fez um texto lindo sobre isso. Eu escutava a expressão “enxugando gelo” e falava: “Pessoal, vamos parar de usar essa expressão, porque quando você vai pra praia e retira uma sacola de lixo, você tem que entender que é uma sacola a menos que vai parar no mar.”

Comecei a usar a expressão “Não importa quanto lixo tenha. Importa quanto lixo nós conseguimos retirar.”

No texto da Yara, ela dizia que a gente não enxuga gelo, a gente quebra o gelo do coração das pessoas. Quebra o gelo daquela pessoa que vai pra praia, curte o final de semana inteiro e deixa o lixo na areia. Quando a gente vê alguém descartando um pratinho de milho de isopor e uma formiguinha vai lá e retira, a gente está quebrando esse gelo. Isso pode evitar que esse pratinho vá parar no mar. Depois que compartilhei o texto da Yara, nunca mais escutei a expressão “enxugar gelo” no grupo. Elas entenderam que o trabalho não é em vão. Já retiramos mais de 35 toneladas de lixo das nossas areias em um ano e meio. Na última ação, em agosto, retiramos 85 quilos de lixo em uma hora e quinze minutos, em um trecho pequeno da praia com cerca de 400 ou 500 metros.


Na sua opinião, quais atitudes individuais podem contribuir para um ambiente mais limpo?


Fazer a sua parte é essencial. Levar uma sacolinha e recolher o seu próprio lixo já faz diferença. E não deixar esse lixo para recolher só no final do dia. Se você chega às 10h e vai embora às 17h, o ideal é já colocar o lixo na sacolinha assim que ele é produzido. Eu sempre peço para amarrar essa sacolinha na cadeira de praia para evitar que o vento leve o lixo para o mar. Também peço que as formiguinhas deem o exemplo. Se vamos consumir algo na praia, levamos nossos próprios copos reutilizáveis. Toda festa de criança hoje em dia dá um copo de lembrança.


Dá pra usar esse copo na praia em vez de aceitar copo descartável dos carrinhos. Nas ações do grupo, ninguém usa copo descartável. Temos nossos próprios copos Formiguinhas. Se cada pessoa que vai curtir o domingo levar o seu copo e recusar o descartável, já é uma grande mudança.


Os copos descartáveis são o que mais retiramos da areia. Tem até aqueles copões de um litro que as pessoas deixam muito na areia. O trator da limpeza urbana passa, mas ele não consegue pegar um copo. Por isso, nosso exemplo é importante.


Na minha família somos três pessoas e cada um leva seu copo. Meus amigos começaram a copiar isso também. Hoje, quando nos reunimos na praia, ninguém usa copo descartável. Já consegui influenciar meus amigos. E se cada uma das 300 formiguinhas influenciar mais 5 ou 6 pessoas, imagine quantas vão parar de usar copo descartável na areia.


Quais são os principais desafios enfrentados nas ações de limpeza?


Eu acho que tudo é difícil. Muitas pessoas abordam a gente e falam que é muito nobre o que fazemos, porque estamos recolhendo um lixo que não é nosso. Mas está na minha praia, na minha cidade, no meu planeta. Tem lixo que a gente recolhe e fica inconformada. Por exemplo, fralda descartável usada.


Eu tive filha, ia pra casa de sogra, comadre, e nunca deixei uma fralda suja em lugar nenhum. Sempre trouxe na bolsa e descartei em casa. Então eu me pergunto: como uma mãe troca o filho ali na areia e simplesmente deixa a fralda? O que ela acha, que a fralda vai sozinha pra lixeira? Outro exemplo que choca a gente é o que eu chamo de “kit milionário”: o cara que leva litrão de uísque, energético, gelinho gourmet… tem dinheiro pra tudo isso, mas não tem pra levar uma sacola e guardar o próprio lixo?


Pior que nem precisa comprar sacola, ele ganhou uma no mercado. Mas deixa tudo na areia. E aí nós, formiguinhas, vamos lá recolher garrafa de vidro, sabendo que se o trator passa em cima, aquilo vira caco e pode machucar alguém.


Tem gente jogando futebol na praia, descalço. Ele mesmo pode se cortar com o lixo que deixou. Isso é falta de educação, de conscientização e de respeito. Essas duas situações são as mais tristes: a fralda da mãe e o lixo do milionário. Muitas vezes, essas pessoas nem são daqui. Vêm só passar o dia e deixam a cidade como se ninguém morasse aqui. Isso faz a gente refletir muito.


Qual foi o item mais inusitado já encontrado nas praias?


Na verdade, não fui eu que encontrei, foi uma formiguinha da equipe. E não foi uma vez só. Encontramos dentaduras. Umas cinco ou seis. Provavelmente a pessoa estava no mar, veio uma onda, a pessoa gritou, a dentadura voou e o mar levou.


Depois, o mar devolve. Já me perguntaram se a gente acha ouro, aliança, relógio… mas não. Ouro, não. Dentadura, sim. Outra coisa foi um pote de margarina com letras em árabe. Estava bem deteriorado, devia ter vindo de longe. Também encontramos uma garrafa com rótulo todo em japonês. Isso foi recentemente, há cerca de um mês.


E já apareceu coisa que parecia lataria, mas em pedaços pequenos, então não conseguimos identificar. O mais pesado que já tiramos foi um pneu de caminhão, em novembro, na Praia do Solemar. Foram dois homens pra conseguir tirar da areia.


Nesse mesmo dia, recolhemos 193 sacolas de lixo e muita madeira. Com tanto lixo, conseguimos até formar o desenho de uma baleia na areia e tiramos uma foto. Nossa fotógrafa subiu numa estrutura de concreto pra fotografar de cima. Deu pra ver direitinho o formato da baleia. Foi surreal.


Você acredita que os turistas demonstram menos cuidado com a limpeza da cidade?


Acho que falta informação. Hoje, a cidade ainda não tem placas claras dizendo “não deixe seu lixo”. Até colocaram algumas agora, mas estão muito altas, lá no alto do poste. Não estão na altura dos olhos.


A maioria dos turistas acha que o carrinho de praia vai recolher o lixo deles. E o pessoal do carrinho diz que quem recolhe é a prefeitura. Aí um joga a responsabilidade no outro e, no fim, ninguém recolhe.


O trator passa, mas só leva o que está dentro da caçamba. O que está espalhado, como copo descartável, palito de sorvete, bituca de cigarro, ele não consegue pegar. A verdade é que cada um tem que recolher o seu lixo. E na alta temporada, nos feriados, tem formiguinha que sai da praia chorando, pela quantidade absurda de lixo que a gente vê.


Você já pensou em encerrar o projeto em algum momento?


Desistir, não. Mas já chorei muito. São 400 pessoas, cada uma com um perfil diferente. Tem ego, vaidade, frustração, agressividade. Eu sou o eixo e recebo tudo. Eu me cobro bastante, porque quero que as coisas aconteçam logo, como era na minha profissão. Mas muita gente leva com mais leveza, e isso me frustra às vezes. Ninguém ali é meu funcionário, então só posso pedir.


O grupo já recebeu algum reconhecimento público ou destaque relevante?


Sim. Em janeiro de 2024, recebemos a visita da Heloísa Schurmann, que viaja o mundo com a expedição Voz dos Oceanos. Ela viu nossos posts, entrou em contato e quis nos conhecer. Passa só cinco dias por ano em terra e escolheu vir aqui. Nenhuma autoridade da cidade apareceu, mesmo com nossos avisos.


Mas ela amou, almoçou com a gente, conheceu a orla e elogiou muito nosso trabalho. Ela me disse: “Que bom seria se toda praia tivesse uma Alessandra.” Isso me deu gás pra continuar.


Como funciona o processo para se tornar uma “Formiguinha”?


É super simples! Lá no nosso Instagram e no Facebook tem um link direto pro meu WhatsApp. A pessoa me chama, e eu envio um vídeo e um áudio explicando tudo sobre o grupo. Aí eu pergunto qual a praia mais próxima da casa da pessoa, porque a ideia é ela participar da equipe da sua praia.


Tipo, se mora na Aviação, vai pra equipe da Aviação. Isso fortalece os laços com os vizinhos, sabe? É bem mais fácil criar amizade e rede de apoio assim. Peço também nome, sobrenome, data de aniversário, e é isso. Nada de RG, CPF, nem endereço!


Só informações básicas. Hoje já temos mais de 400 formiguinhas cadastradas nessa planilha. E o grupo tá crescendo muito! Além da limpeza das praias, o projeto tem pilares que envolvem cuidar da saúde física e mental, tomar sol, caminhar, fazer amigos e promover encontros.


Nossa próxima meta é expandir das 12 praias da Praia Grande para as 9 cidades da Baixada Santista. E pra isso, queremos virar ONG e ter a nossa sede. Um espaço físico pra reunir essa família linda que a gente formou.



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