“Não é mais previsão, é realidade”: climatologista alerta para os impactos das chuvas na região
- Equipe Agregae

- 6 de mai. de 2025
- 7 min de leitura
Rodolfo Bonafim aponta os impactos já visíveis na região e destaca medidas urgentes para conter os danos causados pelos eventos extremos.
Por Beatriz Pires

Chuvas fortes têm preocupado cada vez mais os moradores da Baixada Santista. Episódios recentes em cidades como Santos e Peruíbe mostram que as mudanças climáticas não são uma realidade distante — seus efeitos já são sentidos no dia a dia da população.
Nos últimos meses, os alertas de tempestade se tornaram mais frequentes e vêm provocando transtornos como quedas de energia, congestionamentos e até o aumento no número de desabrigados.
Em entrevista ao Agregaê, o climatologista Rodolfo Bonafim, pós-graduado em Energia e Meio Ambiente pela USP, fala sobre as perspectivas climáticas para a região e as medidas que podem ser adotadas para reduzir os impactos dos eventos extremos.
Como você avalia a atuação das prefeituras brasileiras diante dos alertas sobre o clima feitos há anos?
Cerca de 15 anos atrás, o climatologista Carlos Nobre — que representou o Brasil no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU — já alertava que, se as cidades não se adaptassem às mudanças climáticas, a população sofreria consequências graves. E é exatamente isso que estamos presenciando. De modo geral, não percebo grandes avanços por parte das prefeituras brasileiras. Falta uma mobilização mais efetiva para minimizar os impactos e promover uma adaptação real da população às transformações do clima.
O que levou os cientistas a mudarem o tom ao falar sobre o clima nos últimos anos?
Até pouco tempo, falava-se em mudanças climáticas. Hoje, o termo mais utilizado é emergência climática. Isso porque muitos cientistas ao redor do mundo perceberam que previsões feitas para daqui a 20 ou 30 anos já estão se concretizando agora.
A velocidade da degradação climática e das alterações na atmosfera — impulsionadas principalmente pela ação humana e pelo uso intensivo de combustíveis fósseis — tem sido muito maior do que o previsto. Além disso, no cenário global, atitudes como a saída dos Estados Unidos de protocolos internacionais de clima agravam ainda mais a situação e indicam um futuro ainda mais desafiador.
Quais fatores climáticos estão causando o aumento da frequência e da intensidade das chuvas na Baixada Santista?
O índice pluviométrico anual da região não tem sofrido alterações significativas. O que mudou foi a distribuição das chuvas, que está cada vez mais irregular. Em alguns períodos, chove demais; em outros, quase nada. Essa instabilidade é o que mais preocupa. A impressão de que chove mais vem do fato de que, quando chove, os alagamentos são quase imediatos.
Isso acontece porque o problema não está só no volume de chuva, mas também na infraestrutura das cidades. Há bairros que historicamente enfrentam enchentes, como a Zona Noroeste, em Santos; o bairro do Santo Antônio, no Guarujá; e várias áreas de São Vicente, uma das mais afetadas da região.
Além disso, a drenagem urbana é deficiente e o descarte irregular de lixo piora a situação — é comum ver bueiros totalmente entupidos. A macrodrenagem da Zona Noroeste, por exemplo, é prometida há mais de 20 anos, mas nunca saiu do papel.
O que tem sido feito pelas prefeituras para lidar com esses eventos extremos?
Santos até se destaca nacionalmente com um plano de emergência climática e promove debates e conferências sobre o tema. Mas, na prática, ainda falta ação concreta.
Como climatologista e membro da ONG Amigos da Água, monitoro o clima da região há 25 anos, e percebo que muito ainda precisa ser feito. Existem sim episódios de chuva extrema, como o que ocorreu em Peruíbe em janeiro — nesses casos, não há sistema de drenagem que dê conta. Mas, no geral, o litoral tem sido menos afetado que o interior.
As frentes frias que trazem essas chuvas fortes chegam enfraquecidas à costa, mas ainda assim causam muitos transtornos.
Que tipo de ações podem ser realizadas em curto, médio e longo prazo para mitigar os impactos das chuvas e reduzir os danos?
A Prefeitura de Santos instalou sacos de areia na região da ponta da praia para diminuir a força das ondas. Tem dado resultado, com as ressacas. Com uma frente fria muito forte, esses ecobags não têm muita eficiência. A prefeitura está prometendo essa macrodrenagem há tanto tempo e que a gente não vê sair do papel. Tem muitos rios que foram aterrados, precisa rever essa questão, principalmente na zona noroeste, esperemos que agora com a continuidade da administração municipal, consiga evoluir um pouco essa parte.
O certo seria realmente não fazer tantos prédios, que acabam prejudicando o clima daqui, trazendo o problema que reprime muito a brisa marinha, esquenta mais e com esse maior aquecimento, pode provocar maiores chances de tempestade, chuvas rápidas localizadas, que podem causar enchentes. Essa quantidade de prédios está prejudicando a cidade, prejudicando o clima.
Como o fenômeno El Niño ou La Niña impacta a ocorrência de chuvas fortes na região?
O El Niño é uma das grandes forçantes do clima e pode provocar tanto ondas de calor quanto de frio, dependendo da região e da época do ano. Já a La Niña está mais associada a chuvas contínuas, especialmente quando ocorre durante o inverno.
No verão, a La Niña costuma provocar as chamadas zonas de convergência do Atlântico Sul — canais de umidade que se formam na Amazônia e descem até o Sudeste. Às vezes, essa umidade nem chega até a Baixada Santista, mas quando chega, pode causar chuvas persistentes por três, quatro, até cinco dias seguidos. Mesmo sem grande intensidade, esse tipo de chuva prolongada pode gerar muitos transtornos, especialmente em áreas já vulneráveis.
A Baixada Santista é mais vulnerável a enchentes e deslizamentos devido à sua geografia? Por quê?
Sim. Além dos problemas urbanísticos — como a falta de adaptação das prefeituras às mudanças climáticas e as falhas na drenagem urbana —, há também um fator natural importante: a geografia da região.
A Baixada Santista é uma planície litorânea muito baixa, com altitudes de apenas dois ou três metros acima do nível do mar. Em alguns pontos, como na Zona Noroeste, em Santos, e no bairro Santa Rosa, no Guarujá, o terreno está até abaixo do nível do mar.
Isso torna a região naturalmente mais propensa a alagamentos. E, com a elevação do nível do mar provocada pelas mudanças climáticas, a tendência é que esses episódios se tornem mais frequentes e mais graves nos próximos anos.
Existe alguma projeção sobre quais áreas da região estão mais propensas a sofrer com desastres naturais no futuro?
Na região, a Ponta da Praia é um dos pontos mais críticos. Já há alguns anos é possível observar o avanço da erosão marinha, com a faixa de areia diminuindo drasticamente — em alguns trechos, ela praticamente desapareceu. Diante desse cenário, alguns cientistas atmosféricos e climáticos já recomendam que se evite investir em imóveis em áreas litorâneas que estão com os dias contados.
Cidades como Santos, Rio de Janeiro e várias outras do litoral brasileiro, inclusive no Nordeste, já mostram sinais de comprometimento. Indo além da Baixada Santista, a Ilha Comprida, na divisa com o Paraná, também tem sofrido bastante com a invasão do mar. As ressacas têm sido cada vez mais intensas, agravando esse cenário.
Que tipo de ações podem ser realizadas em curto, médio e longo prazo para mitigar os impactos das chuvas e reduzir os danos?
No curto prazo, algumas medidas emergenciais já vêm sendo adotadas, como a instalação de sacos de areia na região da Ponta da Praia para conter a força das ondas durante ressacas. Essas barreiras têm surtido efeito em situações moderadas, mas em casos de frentes frias mais intensas, a eficácia é limitada.
Para o médio prazo, é essencial que projetos estruturais prometidos há anos, como a macrodrenagem da Zona Noroeste, finalmente saiam do papel. Muitos rios foram aterrados ao longo das décadas e essa decisão precisa ser revista com urgência. A esperança é que, com a continuidade da administração municipal, essa pauta avance de forma concreta.
Já pensando no longo prazo, é preciso rever o modelo de urbanização da cidade. A construção desenfreada de prédios prejudica o fluxo natural da brisa marinha, eleva a temperatura e cria condições mais favoráveis para tempestades e chuvas intensas e localizadas. A verticalização excessiva está afetando diretamente o microclima da cidade e contribuindo para o agravamento dos impactos das chuvas.
Qual o impacto do desmatamento e da urbanização descontrolada no agravamento desses eventos extremos?
O desmatamento e a urbanização desordenada têm um papel direto no agravamento de eventos extremos. A previsão climática já aponta para uma tendência de chuvas em excesso em certas regiões e seca em outras. Foi o que vimos recentemente: enquanto o Rio Grande do Sul enfrentou volumes históricos de chuva, aqui no Sudeste choveu bem menos.
Outro exemplo foi a quantidade anormal de neblina na Baixada Santista entre julho e agosto do ano passado. Embora seja comum termos neblina nesse período, a frequência e a intensidade foram muito maiores. Isso ocorreu, em parte, por causa do aumento das queimadas no Pantanal, no Centro-Oeste e no interior de São Paulo.
Essa massa de calor provocada pelas queimadas empurrou a umidade das frentes frias para o litoral, fazendo com que ela se concentrasse aqui e causasse esse excesso de neblina.
Como a população pode ser melhor educada e preparada para lidar com esses desastres naturais?
A educação ambiental precisa ser uma prioridade, especialmente no que diz respeito ao descarte correto de lixo e entulho. Ainda há muitas pessoas que jogam resíduos nas calçadas ou em locais inadequados, sem perceber que isso interfere diretamente na drenagem urbana, agravando os alagamentos. Até mesmo dejetos de animais são levados pela chuva para os córregos, contaminando a água com coliformes fecais e colocando a saúde pública em risco.
Outro ponto importante é o treinamento da população que vive em áreas de risco, como os morros. A prefeitura realiza ações nesse sentido, mas é fundamental reforçar a orientação sobre como observar os sinais que o solo dá antes de um deslizamento. Com um olhar mais atento, é possível perceber mudanças que indicam risco iminente.
Seria muito interessante se a população tivesse acesso a ferramentas simples, como os pluviômetros – aparelhos usados para medir o volume de chuva. Os mais básicos são apenas provetas graduadas e fáceis de usar. Com um treinamento básico, cada morador poderia acompanhar o índice pluviométrico da sua região, o que ajudaria a antecipar possíveis situações de risco, especialmente em áreas vulneráveis.




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