É FANTÁSTICO! Numa fração de segundo, qualquer reportagem agita o mundo
- Revista Viral
- 13 de dez. de 2023
- 7 min de leitura
Evandro Siqueira, produtor do Show da vida, conta os bastidores da produção do jornalístico que completou 50 anos em 2023.

Texto: RONALDO JR
fotos: DIVULGAÇÃO
Ah- Uh- Uh- Ah, Ah- Uh- Uh- Ah, Ah- Uh- Uh- Ah, Ah- Uh- Uh- Ah” quem escuta essas vogais, pronunciadas por uma voz rouca, é automaticamente teletransportado para o domingo à noite. As gerações mais antigas conseguem até mesmo visualizar a modelo e a atriz, Isadora Ribeiro, saindo do espelho d’água na abertura daquela que é considerada a revista eletrônica mais longeva da televisão brasileira: o Fantástico.
Neste ano de 2023, mais especificamente no dia 5 de agosto, o Show da Vida completou 50 anos no ar e para entrar nas comemorações da revista eletrônica que ao final de cada edição anuncia o início de uma nova semana, conversamos com um dos produtores do programa, Evandro Siqueira. Então olhe bem, preste atenção!
Evandro Augusto Simões Siqueira é um dos nomes que responde pela produção semanal de um dos programas de maior audiência no Brasil, batendo na casa dos 17 pontos de audiência e pautando as conversas da semana.
Siqueira é santista. Formou-se em jornalismo pela Unisanta em 1998. De 1999 até 2000 trabalhou na Prefeitura de Mongaguá, como assessor de imprensa. Ingressou no jornal A Tribuna em dezembro daquele ano e pouco tempo depois descobriu que havia passado também no teste para o jornal Expresso Popular. Aí a tradição pesou e ele preferiu ficar na centenária A Tribuna.
Em 2007 tornou-se produtor da afiliada da rede Globo na Baixada Santista e Vale do Ribeira, a TV Tribuna, fazendo sempre reportagens investigativas como a série sobre o crack, que tratava da mudança da cracolândia do centro de Santos para os arredores da rua Santa Catarina, no bairro do José Menino, ou a denúncia de corrupção na prefeitura de Cubatão.
A partir de 2008, devido à qualidade de suas matérias na região, passou a cobrir férias de produtores na Globo SP, inicialmente a serviço do Jornal Nacional, no então núcleo de reportagens investigativas da emissora, com os repórteres César Tralli, César Galvão e Maurício Ferraz, logo em seguida cobriu férias no Fantástico. Em 2009 foi efetivado na equipe do Show da Vida, onde está até hoje.
“Demorou para cair a ficha e entender onde eu estava. Após um tempo na redação, uma vez que precisei ir à redação do Fant no Rio e encontrei a Patrícia Poeta e o Zeca Camargo, apresentadores do programa na época, que começou a cair a ficha”, diverte-se o produtor.
O programa é gravado no bairro do Jardim Botânico, sede do jornalismo da Globo no Rio de Janeiro, mas a sua montagem é dividida entre Rio e São Paulo. Às segundas-feiras toda a equipe ganha folga, às terças todo o programa do domingo anterior é avaliado junto com toda a equipe e então têm início as primeiras conversas sobre a pauta para o próximo domingo.
“Sentamos em vídeo conferência com o Rio e os diretores vão falando: essa matéria foi legal, deu tantos pontos de audiência, essa outra não foi legal, aqui podia melhorar assim. São quase 2 horas só nisso e depois temos as reuniões de pauta, onde vemos com o que iremos trabalhar na semana”, revela Siqueira.
Entre terça e quinta os produtores se concentram para ver se apostas que fizeram darão certo. Na quinta-feira acontece uma reunião com os editores e é quando o programa é esqueletado, o que for passível de ser finalizado até sexta é mantido. O que precisar de mais tempo é descartado para a próxima edição. Sábados e domingos são reservados para factuais, jargão jornalístico para acontecimentos de última hora), então vem a edição e a ravação do programa.
“Não existe um tempo médio que ficamos com cada pauta, tudo depende do que faremos. Recentemente, numa matéria sobre desmanche de carros que produzi, demandou meses de muito trabalho. Então tudo varia da necessidade e desenrolar da pauta”, ressalta.
Primeiras matérias
Em uma de suas primeiras matérias para o programa, Siqueira trabalhou disfarçado de camelô no bairro do Brás em São Paulo durante um mês. O objetivo: flagrar os fiscais que cobravam propina dos trabalhadores. A ideia veio pela presidente do Sindicato dos Camelôs que queria dar fim naquilo.
“Eu não acreditei que ficaram me pagando para trabalhar um mês assim, algo impensável na TV Tribuna por ter uma equipe bem menor. Um dia uma das editoras da matéria me ligou perguntando exatamente onde eu estava e em 5 minutos o Globocop sobrevoou a região capturando imagens de cobertura para a matéria. Foi quando caiu minha ficha que estava na Globo”, diverte-se.
Evandro Siqueira também foi a única pessoa a conseguir filmar a entrada da polícia no apartamento no caso do sequestro de Eloá Cristina.
“A imprensa inteira de São Paulo estava lá e só eu consegui essa imagem. Já tínhamos ido no prédio ao lado, falando com os moradores e a polícia nos descobriu e nos tirou de lá. Voltei com uma câmera amadora e fiquei de tocaia para consegui a imagem. Assim que gravei avisei a editora do Fantástico e domingo essa cena estava no programa”, orgulha-se.
Caso Joaquim
Siqueira acompanhou o caso da morte do menino Joaquim Ponte Marques, em Ribeirão Preto (SP), desde seu início, em 2013, entrevistando com exclusividade Guilherme Lombo, padastro do garoto e apontado, na época, como suspeito do assassinato. Tempos depois Lombo confessou o crime. Siqueira acompanhou cada passo da investigação até a prisão preventiva do padastro. Posto em liberdade para aguardar os trâmites do processo, Lombo fugiu do país.
Em 2017 a investigação descobriu seu paradeiro. Evandro obteve em primeira mão a notícia diretamente do advogado do pai de Joaquim, que numa ligação disse ter novidades sobre o caso, mas que precisava ver o jornalista pessoalmente. Imediatamente o Fantástico enviou Evandro para falar com o advogado. A denúncia chegou por meio de uma postagem no Facebook feita em Barcelona, na Espanha. “A pessoa que o denunciou estava com ele e uns amigos num bar, no meio de uma bebedeira Lombo quis contar vantagem e disse que era foragido no Brasil. Ela, uma chilena, desconfiou e resolveu pesquisar e viu que era verdade”, relata o repórter que em pouco tempo já sabia que o fugitivo usava documento falsos e até o nome do hostel onde estava hospedado na capital da Catalunha.
De posse dessas informações, seguiu no primeiro voo para a cidade espanhola, mas antes de embarcar tomou o cuidado de consultar suas fontes na Polícia Federal e então descobriu que Guilherme Lombo tinha deixado o Brasil com o nome do primo em um voo para Montevidéu, Uruguai.
“Fui sozinho para Barcelona e lá tive apoio de um cinegrafista local. Fiquei dois dias de tocaia esperando Lombo aparecer e nada. Descobri então que cheguei dois dias depois dele ter saído de lá. Foi uma frustração, eu sabia que não tinha prometido encontrar algo para meus chefes, mas eu não queria voltar sem nada”, conta.

Quando Evandro achou que tudo estava perdido, acabou fazendo amizade com o recepcionista do hostel, um jornalista venezuelano que foi tentar a vida na cidade espanhola. Ele conseguiu todos os dados da hospedagem e descobriu que o número de telefone dado no check-in era falso, porém, como precisava se manter, Lombo cometeu o deslize de deixar um currículo se oferecendo para trabalhar como garçom.
Evandro resolveu entrar em contato com o fugitivo se passando por um comerciante que iria abrir um bar,. Marcam um encontro e na hora marcada Guilherme apareceu, no entanto, o produtor não podia aparecer, pois seria reconhecido, já que o entrevistou anos antes.
Após conseguir as imagens do padrasto, ele desmarcou o encontro e avisou a TV Globo:
Naquele momento instaurou-se uma discussão: Avisar ou não a Interpol?

Uma ala do programa não queria avisar, pois não era dever do programa. No entanto, Siqueira foi um dos que bateram o pé de que deveria avisar, por ser o dever de cidadão e após muito debate, assim fizeram. Após combinarem tudo com a Interpol e polícia catalã, marcaram um novo encontro.
Enquanto o padrasto do menino Joaquim aguardava Evandro Siqueira para falar sobre uma proposta de trabalho, vários policias disfarçados começavam a chegar ao local e o jornalista escondendo a identidade com capuz ficou praticamente ao lado do foragido da justiça brasileira, filmando com seu celular, enquanto o cinegrafista que apoiava a matéria, filmava tudo de longe, do alto de um prédio, até Guilherme ser preso.
“Ele tentou disfarçar, falando um portunhol que aquilo era um engano, mas quando eu cheguei filmando com o celular e perguntando por que ele havia fugido do país, ele percebeu que foi descoberto e não falou mais nada”, relembra.
Em outubro de 2023 o caso foi julgado e Guilherme Lombo foi condenado a 40 anos de prisão e até o fim desta edição da Viral já havia começado a cumprir a pena na prisão de Tremembé (SP). O caso ainda cabe recurso.
Prêmio Tim Lopes
O produtor do Fantástico já recebeu uma das maiores honrarias do jornalismo brasileiro por uma matéria que desmantelou uma máfia de caça-níqueis em 2011. Ele descobriu as vendas das máquinas pela internet e ainda ofereciam assistência técnica. Na matéria fizeram todo o processo de compra, posteriormente entregando para Polícia Federal e acompanharam apreensão de máquinas ilegais em comércios, que faziam os jogadores apenas perder dinheiro.
“Fiquei muito honrado com esse prêmio por tudo que o Tim representa e por ser muito fã dele, mas para mim a melhor matéria da minha vida foi a do caso Joaquim pela representatividade social dele, afinal, ajudei a prender um assassino” fala Evandro Siqueira.
Família e Amigos
A professora de inglês Mariana Andolfato, esposa de Evandro, diz que só consegue entender a rotina e a vida de um produtor do Fantástico, sem que isso traga grande problema na relação deles, pois quando o conheceu, a vida de Evandro já era uma loucura.
Ela confessa que foram diversas as vezes que de manhã o Evandro falava que eles se veriam à noite e, de repente, tudo mudava e ela se via indo no shopping para comprar roupas para uma viagem a trabalho de última hora a pedido do Fantástico.
“O povo fica falando “Globo Lixo, Globo Lixo! Só fala fake News!!!” e eu vejo como isso é um absurdo. O Evandro se mata para apurar, reapurar, checar e rechecar para colocar uma informação correta no ar, o que me ajudou a entender como funciona a profissão de um jornalista”.
Já o jornalista napolitano Luigi di Vaio, amigo de longa data de Siqueira, conta que eles se conheceram quando na redação de A Tribuna em 2000. Ao primeiro contato, o italiano confessa que não foi com a cara do novato. Hoje, além de bons amigos, são vizinhos, pois moram no mesmo prédio e a todo momento frequentam as casas um do outro.
"Quando o Evandro chegou na Tribuna, eu olhei aquele e pensei: Chegou um cara bem esquisito aqui, usa óculos, meio careca, acho que nem bebe, vou queimar esse cara. No fim ele virou meu melhor amigo".
Luigi Di Valo
Jornalista




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